Ao elefante branco no meio da sala - carta de mim para mim

Mari, aqui é você mesma.

Já começo avisando que falarei sobre algo que está - no mínimo - 500 anos atrasado enquanto pauta prioritária. E entre os seus segue sendo diariamente negada. Então, acostume-se com a sensação de ignorância e insuficiência. Mais do que isso, aceite-as como sinais de que o seu processo é coerente. Isso aqui é pra mais de uma existência, então vá largando mão da vaidade de querer concluir algo ou conseguir falar sem deixar lacunas. Entenda ao juntar os fatos que te trago que é quase matemático a nitidez dessa impossibilidade. Quanto mais cedo maquiar e proteger essa fragilidade não for prioridade, mais cedo podemos ir ao que realmente importa.

Eu queria de alguma forma poder te avisar que você vai se descobrir racista com todas as informações que trarei para que você não se distraia tanto com a ofensa que sentirá toda vez que se aproximar desse fato - e com todo o tempo que perderá tentando se distrair dele.

Demorou mais de 20 anos para você assumir seu racismo.
E depois disso, mais alguns até a necessidade sufocante de falar sobre isso abertamente chegar.

Você vai entender vagarosamente que um dia já é demora demais quando comparar a necessidade do tempo desse processo com todas as estatísticas que comprovam o quanto o racismo é um projeto de extermínio. Inclusive, entenderá que um dos vários privilégios que temos é justamente ter tempo. Mais uma comparação matemática, sacou?

Infelizmente, também vai compreender que ele foi necessário para não se destruir completamente no processo. Porque lutar com seu racismo, meu bem, é lutar com as bases mais sólidas e concretas do que te fazer justamente ser você. Leia isso com calma e preste atenção no descompasso. Proteger sua singularidade X a pluralidade de vidas destruídas todos os dias, várias vezes ao dia. Quando essa ficha aqui cair, guarde-a como talismã para nunca perder de vista a prioridade.

Você vai reavaliar toda sua história. Sua família branca-cristã-ocidental lhe dará todos os embasamentos que você durante um bom tempo lutará contra, querendo acreditar que há como não aceitar o que constitui a você e seus ancestrais. Durante anos fazer birra e estardalhaço serão seus acalantos, como se fosse possível a culpa ser responsabilidade de apenas um pequeno grupo de pessoas. Isso também será uma grande distração. Batalha perdida antes de começar, queria poder ter como te avisar para que não tivesse sido necessário perdermos tanta vida. Quanto mais cedo você olhar e assumir, mais cedo nomeará, reconhecerá. É sobre abrir mão de uma fantasia que foi criada em você. Você não nasceu, na realidade, com direito inerente a nada. Mas neste mundo fantasia, sim.

Queria ter como te falar desde antes desse processo iniciar que essa responsabilidade é coletiva, para que não fosse necessário odiar suas raízes. A culpa não é da sua família. Assim como a culpa não é sua. Seria mais eficiente se pudêssemos pular a parte do ódio coletivo e principalmente do auto-ódio. É quase ridículo, mas nem um pouco ao mesmo tempo: só estávamos e estão a reproduzir o mundo fantasia do qual todos sustentamos em algum nível nesse sonho coletivo violento - e tão real ao mesmo tempo.

Isso tudo vai te dilacerar. Reconhecer e nomear é sobre romper consigo mesma em níveis cada vez mais profundos e, sinto informar, ainda hoje isso acontece. Mas já firme naquele talismã que te falei, digo: dói menos, por ter segurança do que de fato tem importância. E, com o tempo e tendo compromisso com o reconhecimento, verá que não é sobre o outro. Não há outro. É sobre o todo. Estamos todos presos dentro de um sistema violento.

Quando sentir a dor de assumir sua parte nisso e o quão próximo isso te deixará de perder fé na vida, entenderá também porque a esmagadora maioria, nega. Tem uma turma que pula do racismo ao antirracismo sem perceber o tamanho do desserviço. Principalmente a si mesmos, por tanto perderem sem sentirem o processo. Também encontramos semelhantes que conseguem permanecer na admissão de ser racista. Isso é bom, indicará que é possível. E algo vai começar a aliviar de dentro pra fora quando você entender que é sobre tecitura de vida, não escolha. Trabalho para uma vida toda.

Em algum momento você encontrará respiro de vida em sabedorias. Isso te despirá do frágil ego que coçará em vários momentos caçando criar teoria. Super valorização também desumaniza. Esteja atenta. Indique sim tudo que compõe o vasto caminho de referências que nos fez chegar aqui, mas entenda: sua facilidade - lapidada a muito treino - com palavras está conosco para termos coragem de atestar esses estudos com nossa própria história de vida. Quem sabe assim outros se reconhecem e o processo fica mais eficiente? Mas lembre sempre: não há direito algum de fazer fora se não estiver fazendo dentro. Você vai repetir muitas vezes para você mesma: é preciso sustento.

Quantas palavras ainda não necessárias, não?

Confie. Mais leve vai ficando quanto mais for se dispondo a dançar com suas limitações, apegos e violências. Vai limpando o caminho e deixando-o aberto para ir vendo que isso vem sim de um projeto coletivo, mas que a decisão de romper o ciclo é sua. Assim como a forma de rompê-lo. É bom poder afirmar que você vai descobrir que escolhemos o amor, principalmente quando compreendemos que o ódio e o medo são as bases de todo esse adoecimento.

Queria não querendo te falar todas essas coisas. Se há uma verdade, é que não dará para pular nenhum desses passos. Mas sorrio, hoje, ao saber que esse dia aqui chegará. Vai ser o dia que se ver tão pequenina trará um engraçado calor ao peito. Ainda não sei te dizer se é orgulho, pensando agora talvez seja justamente o oposto: integrar sua humanidade. Não é uma virtude, é sobre fazer o mínimo, na verdade.

E sorrio porque foi tanto caminhar se acompanhando nesse processo que hoje é gostoso se saber. Saber de si. Ter a lembrança, que vem do mundo de contação de história em que fomos criadas, sobre elefantes e suas reações a ratos. Sabe, Mari, se a branquitude é um elefante oco que ocupa a sala inteira, todo nosso reconhecimento, por mais torto, sempre nos fará nossas próprias ratas.





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