Nomeei o bicho papão que me acompanha

Sou eu
Que em dias esvaziados de correrias me sinto vazia
Sou eu
Que me forço a dar sentido as coisas antes que elas possam dar a mim

Me puno ao sentir o que quer que seja diferente do feliz por
- ter aprendido a sorrir independente de qualquer coisa
- a ficar quieta caso não houvesse algo bom a dizer
- a temer movimentos contraditórios que pudessem testemunhar contra o idela que tinha de mim
- a criar expectativas sempre inalcançáveis para que, se eu parasse, sentisse como se fosse deixar de ser

Mas
Como ser se
É preciso parar para sentir?

Exercício xeque mate é revisitar a própria história
O peito aperta na quantidade de cobrança
Atropelar meu tempo é armadilha
É preciso ter sustento
Conflito é convite que pode gerar boas mudanças
Como aprender a naturalidade do errar
-se-
O que entendo por aprender é ver e ter a perfeição como caminho?
O que aconteceu nesse caminho que errar se tornou o problema?
Vou reaprendendo a olhar quão sinceramente bem vindo é o movimento

Assim me lembro do sustento
Retorno aos dias que me fundi ao mar e ri com o barulho que a espuma das ondas faziam
Que quero dar referência a cada aprendizado, como este dou a Ana
Nesses dias que vivo, lembrar que o mar existe é acalanto
Assim como essas fortalezas e contenções necessárias
Quando sinto proteções que foram firmadas assim
Nas alegrias que construímos em companhia umas das outras
Fecho os olhos e respiro aliviada: são várias
Existências que criaram pontes e não muros
Referências que me fortalecem

Sou eu
Que tive que curar meu conhecimento para aprender até a me ler
Latina, sim
E branca
Não posso falar o que sou sem os semelhantes me infantilizarem
"Tadinha, de nada sabe, olha o mundo, isso aí não é prioridade"
Estamos tão distantes da realidade

Tudo é ardiloso por ser tão fácil colocar no outro
Não é sobre uma ou outra coisa
Nessa fantasiosa realidade, a armadilha é o todo
Por isso insisto em apontar meu oco

Primeiro é sobre a frágil construção que eu tenho de mim
É quase cômico lembrar de uma máxima nossa
"O que os olhos não vêem o coração não sente"
Tanto quis colocar essa responsabilidade fora
Quando sua única possibilidade é dentro
Não romantizo
A dor de romper comigo quase sufoca

Tanto falo
Tanto falamos
Tanto aponto
Tanto apontamos

Quem somos?

Somos nós
Que demos linearidade lógica as histórias
Convenientemente nos esquecendo de contar a nossa
Criamos os "outros"

Os outros que são pobres sofredores
Que precisam querer para mudar
São "outros"
E basta querer para poder
Enquanto nunca falamos sobre os nossos, os tornamos tudo que não queremos ser
Mas que precisam existir para esse modo de vida continuar
- faxineira
- gari
- vendedor ambulante
- motorista
- puta
- garçonete
E somente nisso
Assim simplifica para não precisar lidar

Nós
Nesse modo de vida que aprisiona e sufoca o que é vivo
Vivemos em uma subexistência em nome de algo maior
- religião
- evolução
- costumes
- crescimento econômico
- tradição
- família
Sei bem como é
Também já achei isso bobagem
Mas tenho certeza que já sentiu muitas vezes o peso da cobrança
É necessário construir muitos muros
E trabalhar diariamente em sua manutenção
Para proteger a fragilidade 

É matemático:
Nós ganhamos direitos inatos
Quem sempre os perdeu?
Nascemos com certeiras possibilidades
Quem nunca as teve?
Nossos semelhantes são os ideais a serem alcançados
Quem são os errados?
Os ganhos vieram de escravidões e seguem sustentada pelo racismo
Quem é impedido de sonhar além do básico?
Quem sem nem precisar parar para pensar teve a sua garantida?
Quem tem direito à vida?

Aos semelhantes que compreendem as palavras aqui ditas, convite
A vocês e a mim
Vamos falar sobre o pulo grandioso que é ir de nem conseguir se admitir parte ativa
Para querer já se colocar no lado oposto?
Quando abre-se mão de receber isso como ofensa só me parece grotesco
Quanto deixa-se de lado quando não se sente o peso do processo?

Por tanto tempo precisei desviar disso
Até entender que era de mim mesma o desvio
Fugi de olhar nos meus olhos
De me encarar
Quis tanto, tanto falar
Precisei quase explodir para entender que precisava mesmo era me ouvir

Trabalho foi entender o tamanho do apego
Não é sobre mim ou sobre o outro
Nós ou eles
De novo, é sobre o todo
Nos tornaram órfãos de raízes
Quais partes da humanidade se proíbe 
A quem é desvalorizado?
Quais partes da humanidade se fantasiam
Àqueles supervalorizados?
Entende?

Olho ao redor e vejo retomadas
Sobrevivências que mostram possíveis
Sinto esperança
Não por querer
Mas por necessitar acreditar
Abro mão de precisar de começo meio e fim
O melhor que posso fazer é curar a mim
Me asseguro naquilo que tememos por ser variável: 
meu corpo e minhas sensações
Guias ancestrais que me habitam
Já não temo a imensidão que aqui respira e reivindica ação

Confio no movimento da vida
A única permanência é a impermanência
Reintegro meu ser à natureza
A cada onda que sinto ressoar
Tendo como direcionamento o que me faz vibrar

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